quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O ocaso da ciência brasileira

"Podemos inferir que a produção 'industrial' de papers cause uma perda na qualidade de nossa ciência"

(Marcelo Hermes-Lima - JC) O número de artigos de autores brasileiros tem crescido nos últimos anos, mas o impacto dos mesmos (assim como a qualidade) não tem acompanhado o ritmo. Para comprovar essa diferença, fizemos uma análise do ranking mundial de citações por paper em cada área do saber, ano a ano (entre 1996 e 2008). Estes exames foram postados no blog "Ciência Brasil" (http://cienciabrasil.blogspot.com) ao longo de janeiro.

Mostramos que o Brasil afunda, em especial de 2003-2005 para cá, em todas as áreas do saber majoritárias, incluindo química, biologia, bioquímica e genética, medicina, física, matemática e engenharia. Por exemplo: em bioquímica e genética, estávamos em 19ª lugar em 1996 no ranking de citações por paper, e perdemos uma posição em 2000. Em 2003 passamos para o 21º lugar e em 2008 para uma vergonhosa 29ª posição - ver gráfico com dados da Scimago/Scopus: http://3.bp.blogspot.com/_E8A1LD-hroc/S1M9aCCBjZI/AAAAAAAAIx4/PpKPBlWbtG0/s1600-h/varias+areas+-+brazil.png

Isso é causado pelo aumento exagerado de publicações de brasileiros, sem um aumento paralelo de citações. Ora, que o isso significa? Que o Brasil está, em média, produzindo cada vez mais papers com cada vez menos impacto internacional. Como impacto é proporcional à qualidade (não é uma "regra de 3" - é bem mais complexo que isso), podemos inferir que a produção "industrial" de papers cause uma perda na qualidade de nossa ciência. Qualquer um que faz pesquisa sabe que ciência é uma atividade artesanal.

Ao se optar por fazer a "ciência publicável" (o que é fácil) ao invés da "ciência de descobertas" (o que é difícil) o Brasil perde seu potencial de poder, no futuro, ser líder mundial em produção de conhecimento.

Mas o que nos faz optar por produzir ciência mais fácil ou invés de ciência mais difícil? A pressão para publicar por parte da Capes e CNPq.

Ao meu ver, a Capes é a principal culpada. E por quê? Simples: quem produz 70-80% dos resultados que são publicados são nossos alunos de doutorado. Os pesquisadores seniores apenas lideram e coordenam as pesquisas - mas, em geral, não colocamos a "mão na massa".

E como são os resultados dos recém-doutores e doutorandos que compõem a maior parte do que é publicado, podemos concluir que a origem da perda de qualidade de nossa produção científica é a forma exagerada na qual "produzimos" doutores e teses de doutorado - são mais de 10 mil doutores por ano.

Eu diria, sem medo de errar, que mais de 50% desses doutores são "PhDs Mobral", que jamais poderiam ter o diploma do nível máximo da educação.

O filósofo Olavo de Carvalho, em sua coluna de jornal, fez um paralelo com a queda do Brasil no ranking mundial do ensino básico (hoje estamos no lamentável 88º lugar) com a queda do Brasil no ranking mundial de citações por papers (CpP). Ele ainda comenta que o problema da nossa ciência não é dinheiro - pois o governo Lula tem injetado cada vez mais neste setor - e sim o exagero da interferência do Estado em nossas pesquisas, em nossas vidas.

O Estado-paquiderme brasileiro quer definir o que devemos pesquisar e publicar, em que revista - só falta nos dizer que marca de equipamentos precisamos usar. Será que queremos isso?

Rússia, Suíça e CpP
É importante deixar claro que a análise da produção científica por meio de citações por papers (CpP) é a melhor forma de se comparar países. O número total de papers ou de citações apresenta um viés muito forte do tamanho do país e de seu número de pesquisadores.

Por exemplo, a Rússia, que tem grandes problemas de investimentos em ciência e de perda de mão de obra qualificada (e que todos sabemos que não faz, há muito tempo, uma ciência de "qualidade Brastemp") publicou 34,8 mil papers em todas as revistas indexadas pela Scimago/Scopus em 2005 - a Suíça publicou 22,6 mil papers em 2005. Ora, pelo tipo de análise que se costuma ouvir na imprensa, a Suíça seria um país como menos impacto que a Rússia em termos de ciência. E todos sabemos que não.

Como resolver isso? Por uma análise de CpP. Cada paper publicado em 2005 pela Rússia e Suíça recebeu, em média, 3,2 e 12,6 citações, respectivamente. Ora, há uma diferença de quatro vezes em CpP. A diferença entre Rússia e Suíça tem se mantido entre 3,5 e 4,5 ao longo do século 21. Curiosamente, a quantidade de artigos científicos da Rússia vem se mantendo constante (entre 30 e 35 mil), entretanto os da Suíça vêm aumentando: de 16 mil papers em 2000 para 25 mil em 2007, se mantendo constante em 2008.

Esse aumento da produção de papers da Suíça não fez com que o impacto dos mesmos fosse reduzido, como ocorre com os do Brasil. A Suíça não despencou no ranking mundial de CpP. Muito pelo contrário, tem se mantido em primeiro lugar entre 1997 e 2008 (esta análise foi feita com países com pelo menos cinco mil publicações/ano), com exceção de 2004, quando ficou em segundo lugar.

A Rússia, que manteve constante seu número de publicações (entre 1996 e 2008), saiu de 25º lugar no ranking mundial de CpP em 1996, caindo para 32º em 2001 e para um ridículo 42º lugar em 2008. Naquele ano apenas 43 países foram listados no ranking, pois eram os que tinham pelo menos cinco mil publicações. Veja o resultado de 2008 - neste ranking o Brasil aparece em 34º lugar: http://www.scimagojr.com/countryrank.php?area=0&category=0®ion=all&year=2008&order=cd&min=5000&min_type=it

Espanha e CpP
Temos muitas lições a aprender com países que deram certo em termos de investimentos em ciência e inovação e outros que afundaram. Gosto de comparar o Brasil com a Espanha, pois é uma nação latina (como nós) que saiu de uma situação calamitosa nos anos 70, depois de décadas de ditadura de Franco, para um modelo mundial em educação e pesquisa. Eles, como nós, também publicam muito do que fazem em seu idioma.

A Espanha quase dobrou sua quantidade de publicações entre 2000 e 2008 (de 28 mil papers para 48 mil), e perdeu apenas uma posição no ranking-CpP: de 18º lugar para 19º lugar. Países como Espanha e Suíça não apresentam políticas de "produção" de doutores em larga escala. Não estão interessados em ter milhares de recém-doutores produzindo papers de baixo impacto. Nestes países a política científica não é utilizada para outros fins, como no Brasil.

Todos sabemos que estamos "mal das pernas" na saúde, na educação, na segurança, na aplicação das leis, no controle da corrupção etc. Estar "tudo de bom" na ciência tem sido uma ilusão vendida ao Brasil pelo atual governo. Infelizmente nossa atividade científica está como a educação básica, ainda precisando de terapia intensiva.

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